quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Saudade

Quem vela teu sono
enquanto velo as horas
em que não durmo?

Teus cabelos guardam segredos
só decifro com meus dedos...

anéis justos cobrindo minhas mãos

Teu rosto, moço,
é o guardador da luz
que vigia a minha noite

Por onde andará teu pensamento
enquanto caminhas por aí, nas ruas,

Dessa cidade que não conheço?


27/12/2008

Bilhetes rasos para seus fantasmas (por Rita Medusa e Ivone fs)

Rita:

Desenho luzes?
Entreato de flechas ou somente espasmos no meu caderno manco?

Ivone fs ...
paraliso o instante nas direções multiplicadas

Rita Medusa
O medo é um passo ordinário para a sentença desejada...
Quantos passos você conta?

Ivone fs ...
era de orvalho
em vôo rasante...os pés flutuam

Rita Medusa
As asas souberam dos caminhos as fraturas das distâncias
Um só
Translúcido para ser onírico.

Ivone fs ...
jarradas inesperadas golpearam minha paz
choveu breu sobre os alicerces bambos

Rita Medusa
E bambas cordas se contorceram
Jasmins quiseram resgastes
Não imaginava ardência nos sacrificados mantos
resgates,alturas...

Ivone fs ...
jaziam as cédulas da credibilidade
troquei meu bilhete do vôo sem volta
me debati nos muros débeis do retorno automatizado

Rita Medusa
Soube de não retornar do teto do meu quarto
A alienação carimbando um desvario na testa
Inocente parábolas modificadas com a ponta da língua
Queimaram-me viva e a tocha na minha mão entornava

Ivone fs ...
um sono profundo transportou minhas cinzas
lavadas pelas ondas que inundaram minha face
dejetos abortados



27/12/2008

Vigília

Vigília

Quem apalpa agora
senão um vestígio
de vento na toca
onde curva e volta?

Eu, parede em aparência
uivo mudo, ardência
interna redemoinho

Raso o riso
passos em cadência
em qual me escondo?

Estranha, a noite!
O ruidoso momento
que adia ou espera

Tua voz : nuvem

- envolve minha dor
passeando
e não diz a palavra
que me salva -

Desse ponto,
do mapa indecifrável
do abismo noturno,

aves rodeiam
a esfinge adormecida
guardando um segredo


16/12/2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sobre ilusões amorosas

Embaixo do sono
vão sonhos entorpecidos
de um desejo,

que antes assíduo,
mas depois do ato
só vaidade e desacato

Antes do fim

querer da vida
a crença que ao menos
sustenta

os olhos vidrados
o nariz em reta

e ao pé da orelha
os sussuros molhados

regando a planta
mantendo o viço
do vício de seguir

teimosia estatalando nos cascos

Terra não prometida

O lamento é uma música
de passos sumindo no horizonte

O lamento dá as costas e encara os pés

O lamento é o grito sufocado
de quem perdeu a fé e parte...

carregado.

Confronto

Entre a bebida
e os ruídos da noite
tua imagem passeia...

acelero a volta,
meia volta,
ao meu pouso curto

à merce dos móveis,
em silêncio (imóveis)

e da pouca luz
refletindo meus vestidos inéditos

- deliberadamente prontos

Acelero a volta
em mais um gole,
que devoro

e intervém

pela parte que não fala
pela parte que não cala
- intermediário que extrapola

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

é o que me diz

nestes cômodos, onde as portas nunca levam chave e o trânsito é sem mão. percebes minha dança? há fadas em seda e eu teço nervuras em seus vestidos. elas me afrontam e procuram seu par. eles riem e abençoam seus beiços dependentes. andam em procissão. é o que me diz o teu sorriso mudo. diante da fala muda. é o que me diz, no fim das contas
do que eu sempre soube.


17/10/2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Palavras impressas

I -

Quanto mais quieta mais intensa a agitação encoberta
A fala presa num suspiro travado aguarda um vão neste campo de concentração
Os olhares de gelo
Os sorrisos da hipocrisia
Terrenos infestados
Todos cegos comendo tua merda
É ínfimo o instante...
Dedilhando tuas costas
A palavra inteira passou por um fio,
Percorreu direta, como um líquido injetado em tua pele
Tudo na medida, de não adivinhar, nem acrescentar
Completa. Pode-se dizer. Completa.
Vou pelo ritmo agora,
O ritmo que vier,
Direto, dentro do meu ouvido,
Fala e saliva
Respondo: com as mãos e o corpo inteiro...


II -

Todos os espaços se colidem
não há mais frente ou verso
derramei-me inteira
agora posso ir...
agora sei
que não há limite
não há berço
não há o lençol que forre
nem tão pouco o que cobre
agora sei...


III -

A febre vazou
o delírio não entorpece
que venham todas as dores
que venham e testem
até onde me querem?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ligação a cobrar

Ouço tua voz
que me chama

e reviro

À noite havia pingos
no meio da neblina

e um caminho.

Ainda

que houvesse
uma única razão
para dormir ao teu lado
entre estes trapos
que restaram

valeria!

não tivesse sabido
da tua tão pouca exigência...

no entanto, agora penso:

é hora de limpar estes cantos
abrir a janela e ver o sol
(a próxima atração é de quinta categoria)
eu vou, você fica.

Ivone fs....04/08/2008

Índia que sou

Dos desenhos que faço na água
sobram as sombras e os olhos

Amanheço na borda do primeiro raio
e tenho o dia inédito, em preto e branco

Das securas cravadas, que me fazem sólida,
percebo as primeiras lascas caindo

De pincel nas mãos, espalho o sangue
e de vermelho tinjo minha pele nova

Há um peso...um grito na mata cerrada...

sábado, 15 de novembro de 2008

Arrastão

Nunca serei a pequena margem de tua visão. Se me calculas, perdes a noção. Sou limbo escorregadio, a própria onda dos ventos das estações que se repetem e nunca são as mesmas. Em cada marca, meu rosto altiva, em cada suspiro preso, meu rumo muda. Mesmo contra vontade, sigo. O tempo me chama e sempre vou, mesmo contra minha vontade...o tempo passa e sempre vou. O nosso tempo fica...o nosso tempo ficou...

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

fim de tarde

Um dia sentei no teu colo
no meio da rua

fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi
nem nunca mais me despi


Ivonefs - 04/09/2008

sábado, 18 de outubro de 2008

Um dia depois de antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

Olhares

Insuportáveis, as reticências que sobram nos rompimentos...

Preciso deste quarto escuro,
limitar minha fobia,

domesticar essa ânsia de ir...
(nem que seja só por hoje)

Quem clama respostas,
é a aflição das mãos vazias

O solo íngreme
e os pés inchados?

são pela dureza da desesperança.

As manchas a encobrirem a retina
são sinais latentes:

de que ainda restou algo
do que ainda me domina.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cifras e Códigos

meu dia começa no meio
é simples: só durmo no fim da noite

cenas do dia anterior:
mastiguei um pacote inteiro de cookies
castanha-do-pará
fui votar e me esqueci o número dela
o melhor da rodovia vinha da tua voz:
"diz que segue o coração" *
e sigo então
a chuva no vidro
duvidando do sol
só por hoje
nada formal
nem almoço à mesa
qualquer coisa enquanto caminho
fala emudecida
intensa conversa interior
aumento o som
e leio Drummond:
A rosa do povo
..."É feia. Mas é realmente uma flor"

...................................... * Heitor Branquinho

romântica

Houve a chuva
no telhado

ouça a chuva
ouvi chover

no meu dia
mais nublado

teve um sol
houve você!

esperam muito de mim

esperam meus pés atados
esperam que eu seja o dia
me esperam na retina

e eu sempre querendo lá.

Dos quereres

não quero o medo
que esfria
distancia
me traga alheia

antes,
quero a voz que me alivia
e a ela me assemelha

O que será?

Resta hoje tudo.
É sempre um ponto de partida
quando amanheço

Pensando bem...
estou em estado de alerta
na estação, esperando um trem

Deixei em stand by
qualquer ruído presente.
E vão altos os ventos

adivinhar tua boca.
Se na minha vier,
serei eu tua busca.

sábado, 27 de setembro de 2008

Nem Joana, nem inocência D'arc

Nenhum grito pode ser manso:
eis porque me arrepio!

sem rios de pranto
amanheço inconsciente
levada à fogueira
por um homem "santo",
mas ainda respiro

cravejada de esmeraldas
verde, sua raiva
amargando sua lira,
desposando fel,
fez-me demônio

rosas vermelhas
pétalas áscuas
amantes sublunares
sentidos abastados
relações inventadas

dobro os joelhos
e oro em seu olhar inocente:
livre-se daquela que seus pés prendem
e antes de qualquer morte,
quebrem-se todos os espelhos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ouvindo Mozart

Vou fora
mas os sinos bêbados torturam...

do outro lado

não deduzo o escuro
no fundo dos teus olhos
nem o sol
que os tornam dia,

imagino peixes
na calmaria dos teus lagos,
através do gelo
que não se quebra

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Deixo a marca do estorvo

Na luz apagada
um rosto que acende

num silêncio contido
cortina arriada,
um corpo e um cigarro...

o mesmo céu,
bordado dourado
estrelas alheias

e tuas palavras
as tuas palavras
tuas palavras...

fim de tarde

Um dia sentei no teu colo
no meio da rua

fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi
nem nunca mais me despi

Do que julgava eterno...

Tenho tido sono
estranho!
vejo uma luz se apagando.



No dia seguinte li este texto..."Livro do Desassossego"



'Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.

Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de atos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge, então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.' FP

Enquanto silencio ( Rita Medusa e Ivone fs

Desafios desfiam
em línguas múltiplas

rompem os desfiladeiros
e percorrem os ares

fluxos em sintonias descabidas

musicais flores de núpcias
em pesadelos abruptos

roem-me

E eu,

só queria uma dança contigo.

Ainda

Ainda
que houvesse
uma única razão
para dormir ao teu lado
entre estes trapos
que restaram

valeria!

não tivesse sabido
da tua tão pouca exigência...

no entanto, agora penso:

é hora de limpar estes cantos
abrir a janela e ver o sol
(a próxima atração é de quinta)
eu vou, você fica.

inquietante

em mim
nada estanca

estravasa
cada instante

que não cabe.

Inferno

Há um grito
correndo solto
em alta tensão

sob os dedos
de minhas mãos
(a fronte)
uma visão

Um dia depois de antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

tem diferença...

não sou feita
de ilusões

sou vivida.

Senha

Sou teu pólo
oposto

te eriço
os pelos

pelas antenas
tremulo

te circundo
muda,

enlaço

dormes
no abraço

quase pedra...

liquefaço-me
empoço-me
em teus poros

vou

contamino
atuo
contradigo

antes,
a que te adora...

aturas!

teu destino
determino

rasgo tuas veias
abro tuas vias

pra te ver sangrar

e te quero

no transbordamento
do descontentamento
no ponto em que te tornas
divino!

Selvagem II

Selvagem II

tem noites tão nuas
que a cama se transporta
ao relento do branco
da lua
sinto-me há milhões de anos,
quando ainda vivia numa matilha

Selvagem

Quanto da loba sou
quanto da noite,
claros olhos
estelar

o uivo,

quanto nu
quanto cio
faro, instinto
ancestral

fera.

Muito tarde para ficar

Agora que ficou tarde, meu banquinho esquecido, embaixo da quaresmeira
quase soterrado de capim, oferece-se a mim. Como último recurso, de um passo teimoso, que resistiu a entrega, aceito teu polido osso: fazemo-nos companhia pelas nossas durezas! Carrego nos olhos o peso do desdém, o peso das pálpebras molhadas, o peso de palavras inéditas, jarradas que queimam, nas horas alertas, pois há um ano não durmo. De junho a junho. O tempo me ruiu. Veja só, naquele banquinho, finalmente adormeço. Do alto me vejo.

ainda que devesse

não me peça desculpa,
dessa altura
não espero mais

I miss you

Flagaram-me com minhas cinco asas,
enquanto sobrevoava as escadarias do sonho

cinco sentidos

Fui morta pelos mísseis (MBIC),

...logo eu, que desdenhei das pedras
quando voei.

Com licença poética -

Poética


gasto horas.
a vida
deve ser cumprida...

tão comprida a vida!

f-r-a-g-m-e-n-t-o-s

fragmentos
Sou hoje
feito uma árvore de outono.
e ainda tenho o inverno inteiro pra atravessar

calma...calma... te acalma... alma!



"Sou hoje fragmentos do que já fui,
lapsos que insistem em permanecer,
que tratam de costurar, de tecer,
o fio que me faz ser quem sou,
que garante os fragmentos de amanhã,
pois o hoje já passou. "

Eros

pela janela

pela janela
Amo

a cor do sol.





"nada
como
a
cor
dar"

Mucio

Meus comandos

..........
sem comando
quisso é coisa de militar

rsrs

Sábado

Não quero bom dia
nem beijo
só que me surpreenda,
ainda cedinho,
com café na cama
e pão de queijo.


Poema que fiz pra Muryel e Leo..meus amigos escritores mineirinhos. uai!

Saudade de Fernando N.

hoje acordei pensando em Fernando. caminhar sobre sua pele e passear em todos seus encantos. É bem aí que se sonha! ainda ouço como pulsa..pulsa...pulsa... o sol oposto que o cobre de sombras e o mar que o circunda e o embalança. não há, em toda essa terra, nada igual a Fernando de Noronha!




Mucio

"é de deixar
qualquer um maluco
uma das belezas
do meu pernambuco"

Se restasse ainda uma fagulha que fosse

Peço calma
digo que passa

peço que não chore
e choro

peço que desfaça
e dói

deixo

não faço mais nada
é o que me resta









Comentário dp poeta Mucio:

"resta ser
ser esta"

Ao longe

Dirá do dia
e do lugar
que era outro:

foi pouso durante
pouso de instante
presa de um tempo

que era pouco

terça-feira, 2 de setembro de 2008

:

Eu sei que pelo vidro começa meu passo
por ele, olho lá fora:
se não for pensado é pelo ímpeto!

Tudo isso me compõe:
uma mão amputada
e a transparência ilusória
onde bato a cara

e quebro...quebro a resistência:

qualquer hora te surpreendo!

Insuficiência

Não trago o dia
nem preencho a página...






...estes espaços brancos
é a pena de estar vazia

Óleo sobre Tela - natureza morta

Eu talvez te admirasse
antes do beijo misericordioso...

meu coração revolveu-se
ao toque dos teus lábios imundos

Agora fico entre a perplexidade do engano
e um bolo de chocolate amargo

Fiquei pasma de saber.

sábado, 23 de agosto de 2008

Monólogo em questão

Não tenho o que quero. e o tenho em demasia.

Na Dúvida, me mantenho. Nesse Meio, me sustento.

Perco a Esperança no absurdo que me coloca aos Extremos,

É no Meio que me sustento.

Não um meio Equilíbrio. Mas um meio Indefinido

Onde restam Caminhos? Onde restam Sonhos.

Os extremos me matam. Onde estou.

Estrangeira

Sejas gradativo
nunca manso

talvez me alcance
onde espero

e isso não te conto:

lá,
eu também me desconheço

domingo, 17 de agosto de 2008

Interstício

Tem sempre um desconhecido pálido em minha frente. Uma cisma, melhor dizendo, que na madrugada faz meus olhos incendiarem na escuridão perene de meu quarto quase adormecido. Um quarto móvel de hora flutuante, em que tateio o sono e prescindo um pensamento que imagino aprisionar e escapa...

Monólogo -

Eu canso as pessoas com meus dilemas.
Repito sempre as mesmas coisas. Falo muito e não ouço nada. Só quero que me escutem. Não admito que me dêem conselhos. Nunca permito que me dizem o que fazer. E essa gente sempre se intrometendo!!!
Finjo por uns dias ser uma presença agradável e elas acreditam em mim. Daí pioro.
Eu admito que não amo todo mundo. Tenho uma capacidade limitada pra amar.
Sou muito intolerante. Polipolar. Não me enquadro em quase nada.

Poema que Ruy fez pra mim

Um poema (respeitoso) para Ivone


Anoitece
Se for noite de sarau, verei Ivone
Ficarei insone
Depois dessa miragem
Me faltará coragem
Para dormir.

Ver Ivone é ir
Não sei para onde.
É tomar o bonde
De uma história antiga
De encarnação passada
Ver Ivone é tudo
Mas hoje é só vê-la
Agradar aos olhos,
Abraçar a moça
Entender a emoção
E conte-la.

Essa menina é isso
É o viço
A alegria do momento
O ungüento
Que remove dores
Relembra a história de amores
E passa solene
Passa intocável
como são intocáveis
Os anjos que conheci.

Vai, menina
Cuida bem de tí.


* poema q Ruy fez pra mim

.com

se arrancas meu coração
e ainda me condenas

o que direi do amor?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sobreposição dos desejos

Procuro os contornos
em que não foco

saio da linha
mas mordo sempre o centro

estou agora à sombra das palavras:
não quero frases, porque o frio me deixou estática

"a vida corre, não tem memória, ele diz" ela diz

repouse

na foto, a pose
onde entalhou a lembrança
que jaz

imutável

na arte móvel.

Um arrepio com razão

Há tantos dias
me chama...

Que há em mim?

velando as horas
contando os passos

assim
sem tropeços
desejo expresso

um café
um cinema
um passeio na Paulista
um sorvete de pistache

será?

você diz que à noite tem extras
e posso pedir

mais

e mais

e mais...

Pela janela do quarto

Se fosse perder o sentido
e mergulhar na chuva da manhã,

nesta densa fumaça,
das nuvens parida,
nesta paisagem ambígua

montes Fugis

longínquos e agudos
efervescentes e gélidos

seria depois...

antes,
quebraria todos os muros
edificados entre nós

antes,
espalharia ao mundo tuas letras

e antes ainda, seria absolvida,
pelo amor que me levou

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Tim tim

Que o céu
me reste assim:

cúmplice e ilícito

tinto
em Blue carmim
eu só queria ser merecida,
mas sempre sou demais
ou de menos
nunca o ponto
eu também ando ao avesso do meu andar.
Não vejo beleza.
- frustrada ?
é, frustrada.
fora o reflexo,
o resto,
que adormeceu
As contas do afinal que escolhi, nenhuma levo.
Inda que morra toda razão, preciso andar...
Os vermes caem aos montes. multiplicaram-se, mas a madeira já é pó.

Noites Negras de Inverno

Intenções

Se me encontro
naquela hora
da qual nunca saí,

se o meu íntimo
agora só a tua mão
pode abrir,

se minha boca
fechada e surda,
que ao teu falo se abre,

engole amor e lágrima
em cascata, os poemas

ora de certeza
ora indecisão

nesta imensidão que sou

ora molhada
noutra vazia

é porque

sei que te levo rasante
e é sempre bom, mas

sei que te viras de costas
e caminhas em opostos

sei que me riscas
das tuas listas

que resistes
e não bebes

nem me provas. me prova?

sei,

virás ainda,
no rumor das folhas
embriagadas

dos papéis amassados
com letras coloridas

num beijo que sela
as intenções escondidas

nas sutilezas, pois também sabes
que é sempre bom!

Alucinações antes do aniversário

O inquieto inseto que me habita
revoa recônditos desejos, permeia
as pupilas azuis de um sonho estúpido

Acena, alucinante, às horas expostas
num torvelinho, que chicoteia o chão,
e fere-se aos golpes do tufão faminto

Na rua devastada, a híbrida lua
transpira caldos febris
sobre suas asas transparentes
infecta serviente
que nem guarda
nem anjo
impregnando seus cômodos
cerrados em seu odor imóvel

Larva lacerada,
recolhe as gotas
alimenta sua sórdida
melodia
adorna a monotonia
cravada de húmus e fezes

Os anéis de luz,
nos cantos do teto, ziguizagueiam
em propícios feixes ao anúncio íntimo
dos primeiros acordes:

Salva em mim as notas secretas de meu canto.

Voracidade

de ser
as cores
na mistura de nós

e sobrar
"mulher deitada"
Di Cavalcanti

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Agora sim, desligue o telefone e estacione

É da banda homérica
desenho retraçado
pronto
um confronto

Uma epopéia, arreia

no ponto de ebulição
do encanto x desencanto
encontro x desencontro

na medida que passa

e passa...

A medida elástica
laceou

Mas antes, peço desculpas pelo todo incômodo

Pois agora, o que era de graça
tornou-se inalcançável,

e pede, se te quero!

- Qual a palavra necessária
para um fim sem hinos?

Phoda-se.

Família século XXI

Num quarto,
livro e poesia
louça na pia,
na cozinha

Pesam os olhos
dos bolsos vazios
fazendo valer
todos os dias

Enche e aquece
as faltas, a voz
que intermedia

Sãos os filhos
e as mães
que fazem a família

quantas!

Sobre a (des)ordem das coisas

Foi no tremor do dia
que me calei...

nos cigarros engolidos,
antes molhados na boca
do cão,

no abraço seguido,
e num fim que não se espera

expelido.

A dinamite ecoou
o inferno berra, inútil

e a dor amanhece
refluxo
murcha e impotente

as rupturas em gaze ainda vazam seus fluídos.
da boca, pende o silêncio

e como ordem
indefinida, assente

Não há susto que te sustente.

Casos e acasos

Já fui tardes enovelada
anoitecida em teus braços
ao odor íntimo dos teus poros

Serenei em fotografia congelada,
quando sob o teto teu sexo arfava
e minha pele à tua se juntava

contorci-me e agonizei-me
ao vapor das tuas idas

Meu enredo que faço
minhas horas passadas
nas curvas de teus passos

Na mesma esquina
que inicia onde termina
meu velho pensamento

sem rimas, ferida
sem rumo... (que embaraço!)
- beijo frio de ausência, estilhaços

Meus óculos de sol

Acordei atravessada. irritada comigo. irritada com esta convivência eterna. irritada por ouvir sempre as mesmas lamúrias que escorrem de mim. hoje me ignorei. não levantei a cabeça . tomei banho de costas, só pra não me ver refletida no espelho que fica em frente ao box. usei um perfume inédito. era chegada a hora para algo ignorado há quase um ano (um perfume que mantinha guardado para usar numa ocasião especial, como disse a pessoa que me presenteou, imaginando estar me dando uma preciosidade...). doce demais e eu odeio perfumes doces. minha cabeça dando sinal que não aceitaria quieta todo esse odor, tomei outro banho. não usei mais perfume algum. fui ao centro da cidade... Saio da Vila Madalena, Av. Dr. Arnaldo, Consolação, Av. 9 de julho e Rua São Caetano. em cada farol, um vendedor de suflair (São Paulo tem um vendedor de suflair em cada esquina. São Paulo toda cheira a suflair. qual o chocolate mais consumido aqui? o coméricio dos ambulantes dos faróis. a fábrica de suflair em frenesi, pensei e que calor: imagina a cidade besuntada de suflair... a popularidade deste chocolate me dá enjoo. onde estou? ah, Rua São Caetano, vestidos de noiva, brancos, pesados, longos, e cheios de sol , pobres noivas, que calor...em dez minutos resolvo a que vim. Rua da Cantareira, Av. Ipiranga, Av. 23 de Maio..Túnel João Paulo II, Túnel Airton Sena, Túnel ... túneis... São Paulo precisa de mais túneis e viadutos . Av. Morumbi: mais uma vendedora de suflair. negra, jovem, linda, olhos brilhantes mostrando que vida não tem nada a ver com condições extremas, precárias. ela é o sol que cobre o dia, hoje, penso. paralítica... o farol fecha. ela se aproxima, girandando as rodas com as mãos. falo qualquer coisa sobre o calor que fazia.
- adorei teus óculos, é lindo!!! falou sorrindo e com muita dificuldade.
sorri também. ela não me ofereceu os chocolates, o farol abriu, buzinas, o trânsito andou...eu disse rápido: na próxima! ok? na próxima!... um estrondo. pelo retrovisor vi a cadeira jogada do outro lado da rua, com as rodas para cima. desliguei o carro e saí correndo. as businas eram infernais. ela sorriu quando me viu. tirei meus óculos e coloquei no seu rosto. aos poucos seu sorriso se desfez. sirenes, confusão. eu mais confusa ainda. afastei-me. o barulho agora era maior. dirigi trêmula, vi o Estádio do Morumbi e parei no primeiro posto de gasolina...
hoje à noite vou usar meu vestido mais bonito, demorar na maquiagem, vou sair e não volto antes do sol nascer novamente...

Sem você, com você

Se um meio inexiste,
então invento

canção de inverno
um leve arrepio

(não resisto)

de frente ao espelho
em minhas mãos,

meu desejo - cio
Existo.

Ilhada

Dos cortes que me fez
acabei em Gozo

...e Rabat voltou a ser povoada

Intricada (revisitado)

Velo o silêncio pesado
emboscando a ausência
exacerbada de trilhas

À risca, traço códigos enredados
em veredas inóspitas

Deleto

Reviro inciente

Tardes ocas, chocas
Nem o doce cicio de sua voz me embala

Por que intrico?
Ai de mim...

Massacre

Expus-me nua e santa
e teus olhos negaram-me

pisei em tua terra
comi teu osso
aceitei a última herança
da tua miséria

Sondastes-me a tantas
corroestes a esperança
e de vez anunciaste
pela tua boca medonha:

isenta-me!
insuportável imperfeita
que mancha minhas paredes brancas

Cobre teu rosto
...evita que me veja

Isenta-me!

Do lado de fora

num certo caso
perde-se o senso

perde-se tempo
nas filas de espera

ociosas horas
de olhar vitrines

de andar sem rumo
e não tomar tento

são horas mortas
não tuas,
são doloridas e disfarçadas

são horas cruas
que como em jejum

Minhas ruas

já não me importo
sem pena
nem condenação de mim

arrasto

sou como um tufão
que passa

os destroços?

são meus restos
que ainda ficam.

Paralelos (revisitado)

Rajadas
ondas aladas

névoa

lava rosto e aléias

senti-nelas

na boca, na língua
o toque do céu

Jasmins dão notícias

e te tenho colado
rasgando meus véus

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Através da fumaça

O sentido
gira,

paira em torno
dos cílios da cidade

- São Paulo não respira -

através da densa massa chumbo,
onde meus olhos combalidos,
daqui do alto, afundam

através das frestas dos muros,
nos miados secos
dos gatos vadios

nas vastas ruas
onde carros vagueiam
(vinte e quatro horas - nódoas)

e nas praças talhadas
em granito e sangue:
letargia vermelha...

..no fundo range
uma voz rouca - jazz-blue:

blue?

é um sonho que me lembra...
semelhança...

Descalça

Tanto sol,
tanto mar

e isto não me basta

na areia, só
meu rastro

Passado

Fosse passado
não teria presente
a saudade

Fosse presente
aceitava e até agradecia
- quem não gosta de presente!

Desértica

Fecho os olhos
e te invento

tenho tela, tenho pincéis e unhas

de olhos abertos
pesa
pesa-Delos

sem sombras

domingo, 18 de maio de 2008

Imagens

Enquanto minha voz
te desenha
teus contornos me refazem

calada, só a noite
que assiste meus ensaios
para hora de ver-te

sábado, 17 de maio de 2008

Deste volume

barragem em meu peito

de neve crua
refluxo em flocos

e o sol que me cega
neste branco infinito

acordo mais um dia.

Ficou tarde

me presto na pressa
de apagar o que passou

da hora

e corro para tomar distância,
depois eu respiro

embora,

nunca tenha havido,
admito:
fiquei impregnada

neste caminho

Não há paixão
nem lugar

eu também preciso de água
eu também me revolto

estive clandestina
neste desconforto

neste quarto
de fazer sozinha uma história

desamparo

Farei poemas
onde houver travas
atrasarei as pressas

meus pedaços arrancados
são minhas partes duvidosas
vacilos de noites em vãos

aqui faço verdades
não as minhas
as verdades da poesia

que tem sua própria boca que fala na minha

Assalto

Eram dois
eu tive pena...tive muita pena...
Numa tarde de algum frio, numa rua, no Morumbi, nossos destinos estiveram rentes. Uma volta no carro. Eu fechava o porta-malas e eles me abordaram com a arma dentro da camisa. Um deles, muito nervoso me pedia tudo que estava na bolsa. Eu pedia calma e entreguei a carteira e o celular. Eles correram eu eu corri atrás deles...a polícia chegou...

Jogados e algemados na calçada, eu me vinguei:

- Se fuderam filhosdaputa!

Nove horas na delegacia. Um deles, maior, procurado com vários anos de condenação
o outro, maior há um mês...passagens pela Febem. Hoje, presos em flagrante.

De volta para casa, no trajeto, faço uma ligação de meu celular recuperado. Há muito trânsito. O jogo do São Paulo e Fluminense terminou em 1x0. Vi na TV da Delegacia.

A mãe chorava muito, quando chegou lá levando o documento do filho, que não dormiria em casa.

Tive muita pena daquela mãe.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Palavrarte

Você na sua vida
e eu na minha

e eu na sua

já faz tempo
jazz no vento

você nu
e eu nua

ao relento
escrevendo poesia

domingo, 11 de maio de 2008

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Nike



Diante da Nike
assumo a cabeça perdida
e tomo seu corpo

farejo o azul ainda breu

sob os pés, o vértice corta
parte a água e segue
no uivo do vento

pelos cantos, procuro o Egeu

minhas vestes transparecem
torno lua ensaboada
lisa, respingo inacessível

na imensidão.