terça-feira, 23 de junho de 2009

O silêncio do poeta adormecido

Teu lugar
não te encontra

vive o pássaro
no bico da profecia

que desenhou
a desdenhar da sinfonia:

que era outro o teu canto
que era outra o remanso

um pássaro que não voa?
silêncio!
ele dorme... dorme... dorme...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Outra

Se quiseres ainda me alcançar
não será neste patamar
nesta nota só, unilateral

se quiseres ainda me ver
não será por esta câmera
este olhar antigo, viciado

se quiseres ainda me embriagar
há de destilar essa bebida em nuvens
e ter a boca seca, sedenta pelo oásis

se quiseres, ainda que seja por um segundo,
partir meu olhar, há de compor naves
recompor o universo, a estrada estelar

Jugular indecifrável
exigência dilatada

Receio teu limite
lanço um desafio: duvido de tua vitória

que faria a minha.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Meu lugar

olhei por horas

através das nuvens brancas
pelo canto de um grito mudo
pelo entremeio de orlas trêmulas

sob medida

e saí pela rua... olhando para o que existe

os vestígios terão se evaporado ao nascer do sol, no dia seguinte

custou cumprir, como se pena fosse. e mais uma vez sentiu-se apenas leve, nem maior, nem menor. deixou pra lá essa história de crescimento. haviam páginas a serem preenchidas e histórias prontas a serem vividas...fossem elas quais fossem...

Noite insone

inquieta essa noite...como se algo faltasse...

não alcanço por ânsia

vinho doce, desde que seco

vim andando
pela rua
pelo asfalto
...
há muita pedra
mas pisar nas nuvens... é divino

excesso...
isso que me deixa assim

há mais do que pressuponho
há mais


"A vida é amiga da arte"


os rumos, veja só,
nenhum de nós sabíamos
agora, deixo ao acaso


nada mais livre que se deixar ao abandono
e nada mais inóspito do que o abandono



vou me livrar da condição imposta
não há ditadura que perdure tanto
antes que exploda, terei atirado


Agora é novo o dia


as palavras dançavam
se recolhiam murchas
era o círculo...



viver e não ter lembranças é o mesmo que morrer para a coisa

segunda-feira, 1 de junho de 2009

desarmamento

Quando ainda era sinal de luta
e revirei coisas e saí em chamas
e procurava o labirinto infinito
onde as unhas se quebravam

o quarto escuro, a teimosia
ansiava a desordem, que fosse
a imprevisão do previsível
o triunfo de ver novo, insistia

ora, se durmo e acordo
e hoje é outono, o sol não queima,
mas o vulcão me habita

talvez o segredo, em que não creio.
seja o inexplicável, o grande desconhecido
a verdade, que intocável permanece

o que me faz seguir...

Devoção

Esse lugar é de quem quiser
não peças licença, é de todo mundo
escolhe o que melhor te aprouver
nos cantos, nos ângulos, no sangue,
tua própria escolha, vai fundo!


mas olha através dos braços
dos corpos, da fumaça, dos copos,
da farra, até me alcançar
que eu estou aportada
nesses teus olhos enredados de graça

nesse ponto fixo, meio mística
tentando daqui te adivinhar
é só o vento assoprar
as estrelas se espalham

se é um blue, samba, hip hop,
bossa nova, deixa rolar
eu te sonho nos vendavais
nos meus varais, um destes há de estar

e este link que proponho
talvez não vejas jamais

mas olha através dos braços,
dos corpos, da fumaça, dos copos...

Intervalo

que se chegue a mim,
se for um aconchego
meu colo, minha fala,
meu gelo, minha ausência
minha cara virada

eu não sou admirável
nem tão detestável
meus defeitos trago descobertos
mas, por favor, isso eu peço:

eu acredito em ti
eu acredito e não me comas
e depois me cuspas

nisso só, te quero como sou
se não engulo
eu nem provo

movimento

custa todo riso
desejo, domínio

caminhar como quem ignora o vento contrário

dormir pedra
acordar fria
saber o sol
saber a chuva

custa cada passo
protagonista, figurante

viver passa como um filme

inefável
creio:
amanhã
para a falta de hoje

ou não

Abstração

o que sei é dançar ao vento
rodopiar de braços abertos
engolir pedaços do céu

o que sei bem, é ser ausente

quarta-feira, 6 de maio de 2009

como eu queria virar nuvem...

e sou tão absurda
quando jogo comigo mesma!

mas inventar alguma coisa
daria uma tonalidade audaz
nesse quadro inanimado:

o branco incendeia
o breu da noite atormentada
a cada linha delineia:

anjos de asas e armaduras
adornam vielas com casinhas acesas
as janelas, os segredos

(que nem são segredos,
mas não tenho acesso)

liláses, vermelhos, arredores
"Rosa-e-Azul"

montanhas, pincéis, crianças, nus ...
Renoir, Van Gogh, Monet, Degas ...

Estranha

Há um silêncio
que finjo não ouvir

que cala em nó
embrulhando meus dias

Dessarte, iminente,
o peso e o oco

nas páginas vazias,
alguns vestígios

inquietantes

"Mulheres Nuas"

minha poesia exposta
sob vidro frio, jazia

queria silêncio e gaveta
(tão desconhecida!)

ou antes o vento
a chuva, relento

minha poesia exposta
era estranha e abandono

um cão sem dono
dou-me

naturalmente

ando tomando umas medidas:
em vez de ficar pensando em você
aceitei um convite para um café

e hoje aceitei um convite para um café!!! (outro)

acho que está dando certo
a questão da substituição...

motivo

não direi o óbvio de mim
(quando sou feita de excessos)

sempre a enchente me cobrindo
afogamentos quase completos

e nada que valha

Poesia

passou a manhã olhando pela janela:
sol
nuvens
mais nuvens
sol
fome

a tarde olhando pro chão

à noite mudou de posição

Não direi insanidades

o sol é cenário
a noite é cenário
enquando o mundo brinca de roda

Caderninho

Ando quieta
compenetrada

não imagino o que me tiraria deste sério

porque tem hora, que nem o sonho tem mais ilusão



.

Diálogo mudo

Muito antes que venhas me dizer:
pressinto

...muito antes, tua palavra perderá o sentido
e nada me dirás...



.

Não sou pessimista, mas viver de encarar as coisas como são causa alguma frieza,
que até se parece com algum desânimo...



.

Não creias no que digo
nisso eu creio, já basta!
assim tua crença fica intacta




.

talvez doesse menos meu estômago
se eu pensasse menos
se eu sentisse menos
se eu esperasse menos

preciso urgente fazer uma dieta



.

perdi o interesse
prefiro me livrar das vestes velhas e seguir nua



.

Cinzas

da labaredas que queimaram Joana
imagino um burburinho
e alguns estalos partindo seus ossos
pra me livrar um pouco ao menos de meus mais.



.

o calvário da consciência lúcida
procura o cimo
um sabão em pedra
e um tampão para os olhos

Minha Vila Madalena

Minha Vila Madalena
Enquanto as ruas me atravessam
passo a passo, sem pressa,
grafites, frases, muros,
rastros, bares, murmúrios,
um vendedor de rosas,
toda prosa,
na Fradique Coutinho,
diz que plástico não morre,
nem riso que nasce molhado
da pétala fresca dos lábios
da moça que anda sozinha,
diz que sabe poesia,
diz de um dia que chovia
e vai dizendo,
enquanto rumo ao encontro,
de quem ainda nem conhecia,
no estacionamento,
a minha espera,
na Livraria.

Sob meu olhar

Dias e dias
em convívio recluso
limite, fobia

falei ao avesso
pensei inconsequente:
pipas, balões, aviões

desenhos em papel de seda
papéis de parede, rede
noites insones

Nina Simone

contrastes
na página de hoje
marca-dor

pedaços do passado
espelhos estraçalhados
um corte na mão

amadora

Delírios

Estou pronta
com uma raiva rondando
um ataque
atabaques (palavrinha oportuna)
um bote
e castelos caem

Sonho de Março

Dormir
povoar a noite de sonhos fragmentados

perdi uma criança
de vista
perdi a hora
e um compromisso
esqueci a senha
e chorei
pelo que escapou por esquecimento

cobrou a dor no peito
o dia já pelo meio
o passo que não alcançou
a hora passada
a frustração
a impotência
o sonho perdido

o caos
reflexo do meio
perdi o ponto
balanço

explicações desconexas
desculpas de paz

aos teus pés
angústia
a passagem impressa
jogo de palavras
decolagem
mais um vulto entre transeuntes
inconfessável
incontestável

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Resvala da luz


a metade
que em mim se cala

é Holocausto
fogueira
cruz

dedos que estraçalham





*Marcelo Farias dedicou este poema ao seu amigo Jotta, assissinado em Manaus em Maio de 2009

Choque

vagar em noites,
seguir ciente das ciladas
o riso da boca para fora

no rosto, um véu mascara

não vanglorio
sei da minha miséria
das pétalas,
da flor ainda semi-aberta,
secura

é curto o ciclo...podia deixá-lo cumprir-se

tão silenciosa a margem em que me debruço
chove sem mais sonhar a estiagem
vertente que não se esgota
vertigem constante

essa que vês, se faz camaleão e sua cor é palidez
um dia ousou o sonho,
hoje a frieza
não diria jamais que voluntária

minha ousadia precede o que quero

domingo, 29 de março de 2009

Ele diz: (Ricardo Pozzo e Ivone fs)

- tá com raiva?
- hoje quero ser pedra mais que saliva
- voce quer ser a medusa?
- não. mas olharia nos olhos dela
- a vitima dela?
- não vítima
- suicidazinha!
- vontade...
- olha para trás, igual a mulher de lot
- mulher de lot?
- de sodoma e gomorra
- e virar pedra?
- de sal
e sodoma e gomorra viraram o mar morto
mas aí quem sabe te lambam pelo menos
- as vacas adoram lamber sal...
- eu seria uma vaca
- o sal faz flutuar
- o corpo
- num mar morto salino
- credo... ta mais pra hebréia que pra grega então

ondulações

acho bonita a cidade assim
vista daqui do alto

visto-a nos olhos

hoje de neblina
seda londrina

Sobram as palavras

em que sentido?
nenhum. bloqueio de direção.

viraram um amontoado
e, neste caso específico,

o poema estava do lado de fora.

acordei

acordei
agora talvez eu durma mais.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Paisagem

Do vento, uma rajada
onde transpareço nuvem

De um sopro, um alarde
rebatendo no teto

Uma sensação
parando entre os olhos e o tempo corrido

Um carro,
uma marginal em vai e vem

Um Pinheiros de tez lisa plúmbea
escondendo seu desespero

À saída de um esgoto,
uma garça... solidão.

terça-feira, 3 de março de 2009

O mundo é muito barulhento

Faça-se silêncio

que hoje preciso dos ruídos
das árvores
das águas
das pedras

em choque com o vento
e só.

Ânsias e mármore

Quem dera fosse eu iludida.
Por que vazam-me os olhos
as certezas cruas inauditas?
Por que vazam-me os olhos?

Ronda-me um abraço inédito
Incendeia qualquer riso pouco
Abrasam cinzas em descrédito
Ao vir vento sopro intrépido

Qual beleza fria, fotografia,
O deserto, a solidão a esmo,
Refletindo assaz água viva

Porque certa é a imagem nua,
Céu de um pensamento audaz
Que na dureza não se amotina.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Nada muda

Se eu não tiver você
(e eu não tenho)
continua todo o mundo igual
os dias de sol
as estrelas nos lembrando do céu
o mar sempre responderá ao vento
logo de manhã, os mesmos carros rugirão
as cidades seguirão seu ritmo
se eu não tiver você
ninguém deixa de fazer nada por isso
os teus amigos rirão contigo
a cama macia acolherá o corpo exausto
as contas vencerão
o trabalho exigirá como sempre
nada muda se eu não tiver você
as coisas de fora se movimentam
as coisas de dentro são como um jardim
e num tempo de rosas florescem e morrem
aqui não importa se lá fora é outono
dentro as estações não têm lógica
se eu não tenho você
nada muda ...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Redemoinho

Se solto todos os cordões
e ainda assim há o limite

vem do coração, esse ditador insano,
que me prende em fissura,

a amarra que me faz escrava
a gravidade que me aterriza.

Pequenos ruídos

luz queimando as horas
trechos de melodias
corpos descobertos
ar absorvendo as águas do (nosso)amor
mão adormecida sobre o ventre
tudo no centro da terra
pós explosão. silente.

Do todo que não tenho

falta o ar
falta o ar

é tanto
e me falta

quem me olha,
não diz

Cirurgia

Hospital. Quarto 43.
Cirurgia bem sucedida feita pelos dois irmãos ginecologistas. Ela, 53 anos, sem filhos.

Esforçava-se para manter o ouvido atento à conversa entre os irmãos. Tentava interrompê-los, pois sentia-se agoniada ao ver seu útero naquele recipiente transparente, guardado para análise laboratorial. Seus apelos silenciosos ocorrerram quando entrou o médico, professor dos irmãos e amigo da família, para uma visita. Apesar dos 80 anos tinha muito vigor no andar e na fala.

- Minha querida, a partir de agora você será uma mulher muito feliz!

- Obrigada, doutor, mas por que o senhor diz isso?

- Porque a partir de agora você é uma mulher oca!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O silêncio da última palavra que por si só fala

...e o que mais me intriga
é a síntese de tudo

foi preciso desbravar toda uma floresta
para poder dormir de um simples cansaço.

Lagoa

Pálpebras,
asas encolhidas
sob a neblina:

às vezes
o sonho adormece,
a água turva

e todos os peixes têm a mesma cor

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pétalas ávidas

Ganha minhas coxas,
quando em mim
teus olhos procurarem
o intento dos meus

Neles não há raso,
Nem esse riso próximo
nasceu ao acaso:

Antes se fez,
apaixonadamente,
em toda altura
que à vertigem lança:

A fome e a sede,
de bocas abertas,
diante da mesa farta

Lâminas duras

Não me peçam uma vida regrada
Não me exijam a presença
Não determinem meu dia

Não sou igual se chove
Não sou igual, quando antes à noite foi clara ou escura...
Não sou igual nenhum dia

Meu espelho é um estranho

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Fotografia

Reveste a luz
em lúcida quietude

Beleza mórbida

Dança que enlaça
a forma decifrada
de um ponto imóvel
que não apreendo

Pairando sob a retina
da lembrança
como pinceladas
de indefinidas cores

Avenidas cheias
Asfalto molhado
Luzes, cidade
Vidros cerrados

Calor incendeia o ponto imóvel onde se movem a música, a palavra
e o silêncio do poema pronto sem beijo no destinatário

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Absorvo

Porque te olho e a onda me engole

de ser eu feito areia
dissolvo mole,
disforme.


20/12/2008

Vãs tentativas

Estremeço
pela abundância sedimentada

o desespero retido
borbulha e massacra como fel

ímpeto de alcançar
- mãos estendidas oferecem -

ao chão, num tropeço,
as oferendas se espalham...



26/12/2008

Saudade

Quem vela teu sono
enquanto velo as horas
em que não durmo?

Teus cabelos guardam segredos
só decifro com meus dedos...

anéis justos cobrindo minhas mãos

Teu rosto, moço,
é o guardador da luz
que vigia a minha noite

Por onde andará teu pensamento
enquanto caminhas por aí, nas ruas,

Dessa cidade que não conheço?


27/12/2008

Bilhetes rasos para seus fantasmas (por Rita Medusa e Ivone fs)

Rita:

Desenho luzes?
Entreato de flechas ou somente espasmos no meu caderno manco?

Ivone fs ...
paraliso o instante nas direções multiplicadas

Rita Medusa
O medo é um passo ordinário para a sentença desejada...
Quantos passos você conta?

Ivone fs ...
era de orvalho
em vôo rasante...os pés flutuam

Rita Medusa
As asas souberam dos caminhos as fraturas das distâncias
Um só
Translúcido para ser onírico.

Ivone fs ...
jarradas inesperadas golpearam minha paz
choveu breu sobre os alicerces bambos

Rita Medusa
E bambas cordas se contorceram
Jasmins quiseram resgastes
Não imaginava ardência nos sacrificados mantos
resgates,alturas...

Ivone fs ...
jaziam as cédulas da credibilidade
troquei meu bilhete do vôo sem volta
me debati nos muros débeis do retorno automatizado

Rita Medusa
Soube de não retornar do teto do meu quarto
A alienação carimbando um desvario na testa
Inocente parábolas modificadas com a ponta da língua
Queimaram-me viva e a tocha na minha mão entornava

Ivone fs ...
um sono profundo transportou minhas cinzas
lavadas pelas ondas que inundaram minha face
dejetos abortados



27/12/2008

Vigília

Vigília

Quem apalpa agora
senão um vestígio
de vento na toca
onde curva e volta?

Eu, parede em aparência
uivo mudo, ardência
interna redemoinho

Raso o riso
passos em cadência
em qual me escondo?

Estranha, a noite!
O ruidoso momento
que adia ou espera

Tua voz : nuvem

- envolve minha dor
passeando
e não diz a palavra
que me salva -

Desse ponto,
do mapa indecifrável
do abismo noturno,

aves rodeiam
a esfinge adormecida
guardando um segredo


16/12/2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sobre ilusões amorosas

Embaixo do sono
vão sonhos entorpecidos
de um desejo,

que antes assíduo,
mas depois do ato
só vaidade e desacato

Antes do fim

querer da vida
a crença que ao menos
sustenta

os olhos vidrados
o nariz em reta

e ao pé da orelha
os sussuros molhados

regando a planta
mantendo o viço
do vício de seguir

teimosia estatalando nos cascos

Terra não prometida

O lamento é uma música
de passos sumindo no horizonte

O lamento dá as costas e encara os pés

O lamento é o grito sufocado
de quem perdeu a fé e parte...

carregado.

Confronto

Entre a bebida
e os ruídos da noite
tua imagem passeia...

acelero a volta,
meia volta,
ao meu pouso curto

à merce dos móveis,
em silêncio (imóveis)

e da pouca luz
refletindo meus vestidos inéditos

- deliberadamente prontos

Acelero a volta
em mais um gole,
que devoro

e intervém

pela parte que não fala
pela parte que não cala
- intermediário que extrapola

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

é o que me diz

nestes cômodos, onde as portas nunca levam chave e o trânsito é sem mão. percebes minha dança? há fadas em seda e eu teço nervuras em seus vestidos. elas me afrontam e procuram seu par. eles riem e abençoam seus beiços dependentes. andam em procissão. é o que me diz o teu sorriso mudo. diante da fala muda. é o que me diz, no fim das contas
do que eu sempre soube.


17/10/2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Palavras impressas

I -

Quanto mais quieta mais intensa a agitação encoberta
A fala presa num suspiro travado aguarda um vão neste campo de concentração
Os olhares de gelo
Os sorrisos da hipocrisia
Terrenos infestados
Todos cegos comendo tua merda
É ínfimo o instante...
Dedilhando tuas costas
A palavra inteira passou por um fio,
Percorreu direta, como um líquido injetado em tua pele
Tudo na medida, de não adivinhar, nem acrescentar
Completa. Pode-se dizer. Completa.
Vou pelo ritmo agora,
O ritmo que vier,
Direto, dentro do meu ouvido,
Fala e saliva
Respondo: com as mãos e o corpo inteiro...


II -

Todos os espaços se colidem
não há mais frente ou verso
derramei-me inteira
agora posso ir...
agora sei
que não há limite
não há berço
não há o lençol que forre
nem tão pouco o que cobre
agora sei...


III -

A febre vazou
o delírio não entorpece
que venham todas as dores
que venham e testem
até onde me querem?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ligação a cobrar

Ouço tua voz
que me chama

e reviro

À noite havia pingos
no meio da neblina

e um caminho.

Ainda

que houvesse
uma única razão
para dormir ao teu lado
entre estes trapos
que restaram

valeria!

não tivesse sabido
da tua tão pouca exigência...

no entanto, agora penso:

é hora de limpar estes cantos
abrir a janela e ver o sol
(a próxima atração é de quinta categoria)
eu vou, você fica.

Ivone fs....04/08/2008

Índia que sou

Dos desenhos que faço na água
sobram as sombras e os olhos

Amanheço na borda do primeiro raio
e tenho o dia inédito, em preto e branco

Das securas cravadas, que me fazem sólida,
percebo as primeiras lascas caindo

De pincel nas mãos, espalho o sangue
e de vermelho tinjo minha pele nova

Há um peso...um grito na mata cerrada...

sábado, 15 de novembro de 2008

Arrastão

Nunca serei a pequena margem de tua visão. Se me calculas, perdes a noção. Sou limbo escorregadio, a própria onda dos ventos das estações que se repetem e nunca são as mesmas. Em cada marca, meu rosto altiva, em cada suspiro preso, meu rumo muda. Mesmo contra vontade, sigo. O tempo me chama e sempre vou, mesmo contra minha vontade...o tempo passa e sempre vou. O nosso tempo fica...o nosso tempo ficou...

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

fim de tarde

Um dia sentei no teu colo
no meio da rua

fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi
nem nunca mais me despi


Ivonefs - 04/09/2008

sábado, 18 de outubro de 2008

Um dia depois de antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

Olhares

Insuportáveis, as reticências que sobram nos rompimentos...

Preciso deste quarto escuro,
limitar minha fobia,

domesticar essa ânsia de ir...
(nem que seja só por hoje)

Quem clama respostas,
é a aflição das mãos vazias

O solo íngreme
e os pés inchados?

são pela dureza da desesperança.

As manchas a encobrirem a retina
são sinais latentes:

de que ainda restou algo
do que ainda me domina.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cifras e Códigos

meu dia começa no meio
é simples: só durmo no fim da noite

cenas do dia anterior:
mastiguei um pacote inteiro de cookies
castanha-do-pará
fui votar e me esqueci o número dela
o melhor da rodovia vinha da tua voz:
"diz que segue o coração" *
e sigo então
a chuva no vidro
duvidando do sol
só por hoje
nada formal
nem almoço à mesa
qualquer coisa enquanto caminho
fala emudecida
intensa conversa interior
aumento o som
e leio Drummond:
A rosa do povo
..."É feia. Mas é realmente uma flor"

...................................... * Heitor Branquinho

romântica

Houve a chuva
no telhado

ouça a chuva
ouvi chover

no meu dia
mais nublado

teve um sol
houve você!

esperam muito de mim

esperam meus pés atados
esperam que eu seja o dia
me esperam na retina

e eu sempre querendo lá.

Dos quereres

não quero o medo
que esfria
distancia
me traga alheia

antes,
quero a voz que me alivia
e a ela me assemelha

O que será?

Resta hoje tudo.
É sempre um ponto de partida
quando amanheço

Pensando bem...
estou em estado de alerta
na estação, esperando um trem

Deixei em stand by
qualquer ruído presente.
E vão altos os ventos

adivinhar tua boca.
Se na minha vier,
serei eu tua busca.

sábado, 27 de setembro de 2008

Nem Joana, nem inocência D'arc

Nenhum grito pode ser manso:
eis porque me arrepio!

sem rios de pranto
amanheço inconsciente
levada à fogueira
por um homem "santo",
mas ainda respiro

cravejada de esmeraldas
verde, sua raiva
amargando sua lira,
desposando fel,
fez-me demônio

rosas vermelhas
pétalas áscuas
amantes sublunares
sentidos abastados
relações inventadas

dobro os joelhos
e oro em seu olhar inocente:
livre-se daquela que seus pés prendem
e antes de qualquer morte,
quebrem-se todos os espelhos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ouvindo Mozart

Vou fora
mas os sinos bêbados torturam...

do outro lado

não deduzo o escuro
no fundo dos teus olhos
nem o sol
que os tornam dia,

imagino peixes
na calmaria dos teus lagos,
através do gelo
que não se quebra

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Deixo a marca do estorvo

Na luz apagada
um rosto que acende

num silêncio contido
cortina arriada,
um corpo e um cigarro...

o mesmo céu,
bordado dourado
estrelas alheias

e tuas palavras
as tuas palavras
tuas palavras...

fim de tarde

Um dia sentei no teu colo
no meio da rua

fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi
nem nunca mais me despi

Do que julgava eterno...

Tenho tido sono
estranho!
vejo uma luz se apagando.



No dia seguinte li este texto..."Livro do Desassossego"



'Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.

Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de atos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge, então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.' FP

Enquanto silencio ( Rita Medusa e Ivone fs

Desafios desfiam
em línguas múltiplas

rompem os desfiladeiros
e percorrem os ares

fluxos em sintonias descabidas

musicais flores de núpcias
em pesadelos abruptos

roem-me

E eu,

só queria uma dança contigo.

Ainda

Ainda
que houvesse
uma única razão
para dormir ao teu lado
entre estes trapos
que restaram

valeria!

não tivesse sabido
da tua tão pouca exigência...

no entanto, agora penso:

é hora de limpar estes cantos
abrir a janela e ver o sol
(a próxima atração é de quinta)
eu vou, você fica.

inquietante

em mim
nada estanca

estravasa
cada instante

que não cabe.

Inferno

Há um grito
correndo solto
em alta tensão

sob os dedos
de minhas mãos
(a fronte)
uma visão

Um dia depois de antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

tem diferença...

não sou feita
de ilusões

sou vivida.

Senha

Sou teu pólo
oposto

te eriço
os pelos

pelas antenas
tremulo

te circundo
muda,

enlaço

dormes
no abraço

quase pedra...

liquefaço-me
empoço-me
em teus poros

vou

contamino
atuo
contradigo

antes,
a que te adora...

aturas!

teu destino
determino

rasgo tuas veias
abro tuas vias

pra te ver sangrar

e te quero

no transbordamento
do descontentamento
no ponto em que te tornas
divino!

Selvagem II

Selvagem II

tem noites tão nuas
que a cama se transporta
ao relento do branco
da lua
sinto-me há milhões de anos,
quando ainda vivia numa matilha

Selvagem

Quanto da loba sou
quanto da noite,
claros olhos
estelar

o uivo,

quanto nu
quanto cio
faro, instinto
ancestral

fera.

Muito tarde para ficar

Agora que ficou tarde, meu banquinho esquecido, embaixo da quaresmeira
quase soterrado de capim, oferece-se a mim. Como último recurso, de um passo teimoso, que resistiu a entrega, aceito teu polido osso: fazemo-nos companhia pelas nossas durezas! Carrego nos olhos o peso do desdém, o peso das pálpebras molhadas, o peso de palavras inéditas, jarradas que queimam, nas horas alertas, pois há um ano não durmo. De junho a junho. O tempo me ruiu. Veja só, naquele banquinho, finalmente adormeço. Do alto me vejo.

ainda que devesse

não me peça desculpa,
dessa altura
não espero mais

I miss you

Flagaram-me com minhas cinco asas,
enquanto sobrevoava as escadarias do sonho

cinco sentidos

Fui morta pelos mísseis (MBIC),

...logo eu, que desdenhei das pedras
quando voei.

Com licença poética -

Poética


gasto horas.
a vida
deve ser cumprida...

tão comprida a vida!

f-r-a-g-m-e-n-t-o-s

fragmentos
Sou hoje
feito uma árvore de outono.
e ainda tenho o inverno inteiro pra atravessar

calma...calma... te acalma... alma!



"Sou hoje fragmentos do que já fui,
lapsos que insistem em permanecer,
que tratam de costurar, de tecer,
o fio que me faz ser quem sou,
que garante os fragmentos de amanhã,
pois o hoje já passou. "

Eros

pela janela

pela janela
Amo

a cor do sol.





"nada
como
a
cor
dar"

Mucio

Meus comandos

..........
sem comando
quisso é coisa de militar

rsrs

Sábado

Não quero bom dia
nem beijo
só que me surpreenda,
ainda cedinho,
com café na cama
e pão de queijo.


Poema que fiz pra Muryel e Leo..meus amigos escritores mineirinhos. uai!

Saudade de Fernando N.

hoje acordei pensando em Fernando. caminhar sobre sua pele e passear em todos seus encantos. É bem aí que se sonha! ainda ouço como pulsa..pulsa...pulsa... o sol oposto que o cobre de sombras e o mar que o circunda e o embalança. não há, em toda essa terra, nada igual a Fernando de Noronha!




Mucio

"é de deixar
qualquer um maluco
uma das belezas
do meu pernambuco"

Se restasse ainda uma fagulha que fosse

Peço calma
digo que passa

peço que não chore
e choro

peço que desfaça
e dói

deixo

não faço mais nada
é o que me resta









Comentário dp poeta Mucio:

"resta ser
ser esta"

Ao longe

Dirá do dia
e do lugar
que era outro:

foi pouso durante
pouso de instante
presa de um tempo

que era pouco

terça-feira, 2 de setembro de 2008

:

Eu sei que pelo vidro começa meu passo
por ele, olho lá fora:
se não for pensado é pelo ímpeto!

Tudo isso me compõe:
uma mão amputada
e a transparência ilusória
onde bato a cara

e quebro...quebro a resistência:

qualquer hora te surpreendo!

Insuficiência

Não trago o dia
nem preencho a página...






...estes espaços brancos
é a pena de estar vazia

Óleo sobre Tela - natureza morta

Eu talvez te admirasse
antes do beijo misericordioso...

meu coração revolveu-se
ao toque dos teus lábios imundos

Agora fico entre a perplexidade do engano
e um bolo de chocolate amargo

Fiquei pasma de saber.