quinta-feira, 27 de maio de 2010

e que diferença faz?

tem noite que a gente olha pro céu e vê distintamente tudo que ele apresenta

quem é lua
estrela
meteoro

e olha pra terra e tem a mesma claridade

quem agrega
quem suavisa
quem amarga

quem não é nada...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

De madrugada

via todas as coisas
nem sempre ligava

alheia?
nem sempre. ligava!

sabia guardadas
suas aliadas

e se fazia mar
e se fazia seca

seca, não ligava

fosse coisa à toa
o mar, nem sentia

em sua boca

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Externo

silêncio
embaixo das folhas noturnas
nos arbustos quietos
empastrados de poluição:
densidade hipnótica


torno-me arbusto


fosse apenas uma imagem
um canto
um pano de fundo
jazz
um tributo aos sentidos,


do céu, as estrelas se desprenderiam, certamente,
ao ajuste das cores



o celular toca...

domingo, 18 de abril de 2010

no que te tornas

ainda que te roubem o sorriso
numa repulsa te vomitem vermes

ainda que por um instante te fizerem crer
de um passado, um retrato abissal
de um presente, o que dele restou: ( )

ainda que sentidos sobressaltos em altas doses
irreversível o retoque, se já in-trincado

ainda que falte o chão
ainda que falte o ar
ainda que falte a fala
ainda que falte o verso (porque és poeta!)

e em nenhum lugar te encontrares
e nenhum lugar te sobrar

hás de te consolares, pois de ti não partirás

quarta-feira, 14 de abril de 2010

febril

sinto nos olhos
cinzas
lágrimas correm mais quente neste estado
o silêncio ensurdece num funil
a gente perde a postura
qualquer coisa a fazer
um chá
a muda de roupa para dormir
demaquilantes
creme anti age
ataduras

vou dormir no sofá enquanto crio coragem

Num mesmo tempo (para Maitan)

Num mesmo tempo (para Maitan)
em mim você nasce:
que manhã não há de ser nova?

se essa voz é sua, ouço
ouço sua voz
e escalo

pra ouvir mais de dentro...

a essa altura,
nem uma palavra mais

sob a pele [à flor da pele]

quero tua voz
minha boca entreaberta
meu olhar ligado
no teu

quero o mundo inteiro calado
o momento congelado
as aflições perdendo o medo

Quero um sorriso jogado no nada
meio tímido atrelado
a um suspiro
um alívio
um delírio

quero não dizer nada
ouvindo teus gestos
colhendo os segredos
livremente encarcerada
como sonhar acordada

a história inventar

na saudade
sob a pele [à flor da pele]
no galope sucessivo
o tempo

ah, não corres o risco

na saudade
sob a pele [à flor da pele]
seras de novo

(Ivone fs)


* é música(?) me inspirei num video do Chico Buarque e Milton Nascimento "O que será" (À flor da pele)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Fim de tarde

estive serena
e descobri coisas
um leão cochilando é um cordeiro
um vacilo mata mais rápido que um leão
descobri que ninguém detém doçura e gentileza vinte e quatro horas seguidas
há reféns e fingem
e peso e custo e explosões e apelos
descobri que ódio e inveja são sempre provocados e não há veneno que os extermine
há tréguas banimentos nunca o esquecimento
descobri a escravidão da bondade
submissão
e há outra bondade
essa é rainha tirana
descobri a sensação de ser meio
passagem
quando lambem sua língua com a saliva do diabo pelo próximo degrau
descobri obviedades
e não há quem se salve
só amo quem me ama
e não tolero os covardes
admito os fracos
que não suportam ser menos
porque são
sempre comem na mão
e sobre os altivos
não tenho qualquer palavra
é muita vastidão
dá vertigem

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pretensões

quero andar pelos carros e não ouvir os rugidos (sonho)

a essência da poesia aos gritos:
ando cansada de tapar os ouvidos
canais poluídos
excessos de auto propagandas
tenho tido muito enjoo
poesias de cordões
marionetes
e ainda há quem diga:
a minha sim é poesia! muita pretensão...
"sei lá, foda-se, na boa"
vamos jogar conversa fora
"sem essa" de falar sério
mas fale de mim que falo de você
e nos tornaremos imbatívies
a poesia? a poesia é mera consequência
que seria dela sem mim?!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Cores de outono

as folhas do outono
aguçam olhares ao tempo
nostalgia

o vento bate morno
e já arrepia:
que medo é esse desfolhando as cores?

domingo, 14 de março de 2010

círculo (Para Rita Medusa)


eram formas e meios


quadrados cápsulas globos cilindros cigarros canções

Ginsberg Borges Burroughs Kerouac Bukowski

euforia medo loucura apatia apatia loucura medo euforia


vozes

doses

sono...


profundo como um céu invertido
o abismo


sem nenhum sentido
o mundo


num quase impossível riso: - sei lá - dizia

- na anti-sala o tic tac jamais perde o compasso
vigia



.

quarta-feira, 3 de março de 2010

seja feita a nossa vontade

clareia, dia!
oh dia!
que eu te leve pelas mãos e não pela barriga

clareia, dia!
a caneta ou o teclado dos poetas
que ao menos um soco eu leve
e com um olho roxo te enxergue

que não sejas mais um
café - desjejum
almoço com hora determinada
jantar obrigando salada

clareia, dia!
oh dia!
que sejas de fato novo!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

não se fixa uma prancha sobre as ondas

se alta entorpecia
a língua
em vertigem
engolia o maior vômito futuro
cantava Ben Jor: "...e que se pode voar sozinho até as estrelas"
segredos explícitos
negados
nas rutiladas retinas expostos

- o mar é morto o brilho é só memória -
esse gosto de querer adivinhar
de afirmar e negar
de negar afirmar
passado passado passando pulsando
intermitente

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abstração



lápis e maquiagem de olho

porrada

eu tenho a calmaria das águas
turva nas tempestades

eu sei esperar
solenemente
pelo sorriso que não tarda

e nele me banho
como Afrodite
que ninguém diz:

de um amor cortado
espumou
para te ferir os olhos

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

dia primeiro

este ano não fiz lista
nem pedido algum pro Senhor do Bonfim
pulei ondas pra relaxar
e roubei as rosas de Iemanjá

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ivone

Anoitece
Se for noite de sarau, verei Ivone
Ficarei insone
Depois dessa miragem
Me faltará coragem
Para dormir
Ver Ivone é ir
Não sei para onde
É tomar o bonde
De uma história antiga
De encarnação passada
Ver Ivone é tudo
Mas hoje é só vê-la
Agradar aos olhos
Abraçar a moça
Entender a emoção
E conte-la
Essa menina é isso
É o viço
A alegria do momento
O ungüento
Que remove dores
Relembra a história de amores
E passa solene
Passa intocável
como são intocáveis
Os anjos que conheci

Vai, menina
Cuida bem de tí.

(Ruy Villani)


Poema dedicado a Ivone fs no livro Almas Costuradas de Ruy Villani publicado em dez/09

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

sob prescrição

cinquenta miligramas
e entro no sonho do nada...

posso viver sem o mundo
descansar as unhas

e o amanhã tanto faz
como este poema.

como vingança, se assim quiseres

reservo
como numa receita culinária
um tempo certo
pra maturação

e aí desanda o pensamento
a viagem que fora, nada aflora
e dentro um redemoinho

sintetizo:
esse olhar derruba o meu
palavras que não mentem

resigno?
não
tudo frustação

o tempo escureceu
as nuvens que sozinhas vagavam ganham companhia

fugaz
eu, definitivamente, estou no mundo de fantasias