sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Gabriel

Tenho quatorze anos. Faz um mês que completei, nossa, como o tempo passa, já estou com quatorze, nem acredito!
Em minha frente, preso à imãs, está meu pai, estaticamente sorridente, me olhando. Estranho...é o máximo que consigo dizer. Ele também gostava muito da companhia dos livros. Nisso somos bem parecidos. Não nos títulos. Ele gostava desses livros chatos... Fernando Pessoa, Nietszche, Aristóteles, Saramago e principalmente livros de Economia. Mil vezes Harry Potter, Crônicas de Nárnia...Ah!. Meu pai... é estranho...muito estranho! Ele também vagava pela casa de madrugada e acaba sempre na cozinha. Gostava mesmo de comer. Nisso não somos parecidos. Eu prefiro outras coisas, sim, outras coisas...
Será que ele me condenaria? Minha mãe, Deus me livre, ela com certeza.
Melhor virar essa foto, não quero que ele me veja.
O celular vibra e meu coração dispara: "Entra na Net". Obedeço. A Net já está ligada e todos os meus mais de duzentos contatos bloqueados. Não quero que ninguém me veja...Verifico mais uma vez se a porta está mesmo trancada e enquanto espero a conexão de vídeo, retoco nervosamente e apressadamente, meu baton.
Gabriel tem vinte e cinco anos e já terminou a Faculdade. Só não consegue se livrar daquela sonsa da namorada dele. Nem ligo, azar o dele, que vive reclamando.
Mais uma vez me olho no espelho colado à parede do lado esquerdo de onde estou.
"Gostosa", vejo escrito na tela. Gabriel está sempre de pau duro e adora me ver despindo...///contato bloqueado///.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A rosa

Uma rosa no copo
Botão que se abriu
E morreu em Agosto

Pra que serve um poeta?

Eu não sou poeta
Sou ambígua
Sou mutante
Ser poeta
Me restringe
Palavras
Traços
Rimas
Métrica
Quero ser livre
Para que ser um poeta?
Na calada madrugada
Ouvirei o silêncio
A palavra dormirá
Não virá me despertar
Pobre poeta
Em versos úmidos
Germinados
Se verte
É sua sina
Eu não sou poeta
Sou reverso
Por si só,
É a poesia
Pra que serve um poeta?

domingo, 19 de agosto de 2007

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Quando chegares

Quando chegares
Diga meu nome
Molha minha boca com a sua
E no toque de suas mãos
Revela-me teus segredos
Embrenhe-se em meu íntimo
Serei toda desenvolta
Aos teus olhos incandescidos
Revire meus ângulos
Arranca meus gemidos
Mas segure a hora
- A demora torna a fome fera
Quando chegares
Não diga meu nome
Vem, me devora
como ceva rara.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

sábado, 11 de agosto de 2007

Intricada

Velo o silêncio pesado
emboscando a ausência
exacerbada de trilhas
À risca traço códigos enredados
em veredas inóspitas

Deleto

Reviro inciente
Tardes ocas, chocas
Nem o doce cicio de sua voz me embala
Por que intrico?
Ai de mim...

As luzes da cidade

Da janela vê-se constelações e galáxias
Estrelas de mil cores dançando nas ruas
Correndo nos autos que se cruzam em vai e vem
Riscando os vãos da cidade.
Pousam oscilantes nos emaranhados metálicos
Empoleirados nos altos da Avenida Paulista.
Vestem de azul a torre da Igreja.
Escapam dos olhos de prédios enfileirados.
Desenham o Cruzeiro do Sul, as Três Marias.
As luzes de São Paulo caem no horizonte
E eu penso ingenuamente que vão iluminar
O outro lado do mundo

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O estudante e o médico

O estudante de comunicação e o médico libanês jogaram bilhar, beberam,
conversaram e filosofaram até altas horas.
Na manhã seguinte, o jovem acorda confuso e enojado.
Combalido veste-se e foge dali balbuciando:
- Maldita carona, maldito drinque...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Meus poetas

(Homenagem aos poetas do Bar do Escritor)

Quem me dá o tom
Senão as palavras
Impregnadas de sentido
Lançadas de si
Plantadas aqui
Almas derramadas
Verbalizadas
Sutis
Escancaradas
Camufladas
Efusivas
Vibram como notas
som puro
percorrendo as cavidades
Delicio, morro, renasço.

Centelha

A insegurança a levou ao mais alto penhasco.
Subjugada permaneceu. Não via a luz, não acreditava nela.
E quando adormecia sonhava, mas nunca se lembrava dos sonhos.
Numa noite fria, a lua resplandeceu e refletiu um pedaço de papel
em branco, ferindo-lhe a vista.- Para que me serve um papel em branco?
Não tenho a tinta para borrá-lo enem quero lavrar amargas palavras.
Adormeceu na mesma hora de sempre e novamente sonhou os sonhos
que nunca se lembrava.
Acordou no meio da noite, com a lua ainda no meio do céu.
Sentiu um toque em seu rosto.
Rapidamente prendeu o papel e o levou para diante dos olhos
com uma impetuosa curiosidade.
Estava escrito: comece.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Encapsulada

Noite e chuva se misturam
Respingam fios miúdos
Escuros e úmidos
Caindo em transe
Tremeluzindo à luz
Trazendo as guias
Da melancolia fria
Que rodeia meus passos
Em voltas e contras
Vestindo a revelia
De cores esdrúxulas
As horas que arrasto
Quando colo meus olhos
Na névoa que encobre
Os vícios de antes
E resgato a imagem
Debruçada na memória
Encapsulada para não me perder.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Disfarce

Disfarço
Os medos em risos fingidos
A saudade em versos malditos.
Os sonhos conto em lendas
e as vontades onanizo...
O amor sangra em silêncio
dentro do peito aflito.
Grito interno
que regurgito em dia de tanta
ardência e penúria...
Penúria da alma insone
que em versos se consome.

Sirlei L. Passolongo e Ivone F. Santos

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Despertai (nanoconto)

Era tão estreita a passagem que não conseguia apreender nem mesmo os ruídos desejáveis. Cabia tão somente sua matéria, inanimada, arrastada, aleijada.
E um inquisidor a espreitava: - sua culpa.
O monstro a engoliu.
Quando acordou deu-se conta de seu sono.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Retrato

Nasceu na praça.
Cresceu na praça.
Cheirou cola.
Vendeu crack.
Não foi para a escola.
E nem me leu...

Vacilo (nanoconto)

- Ele virá - disse trêmula e aliviada, apertando o celular entre as mãos.
Ansiava por vê-lo.
Logo de manhã, seu peito seria aberto e o coração restaurado.
Ele se atrasou.

sábado, 7 de julho de 2007

Dupla rejeição (miniconto)

Diante dela, acomodados em macias e peludas almofadas , lamentava sua sina.
Ele, um jovem psiquiatra, recém formado, casou-se, após concluir residência.
Sua esposa, estilista de moda, viajou a trabalho para Itália. Esperava ansioso
seu regresso, mas fora duramente surpreendido. Ela voltou acompanhada.
Reencontrou um antigo namorado, coisas do destino. Justificou :
- Não sinto mais tesão por você.
Nesse momento, ele cobre o rosto com as mãos.
A amiga ouvia e observava cheia de compaixão e gentilmente o consola
acariciando seu rosto beijando-o nos lábios. Ele excita-se e começa a despi-la.
Ela o afasta.
- Porque não? Veja como estou!
- Porque não sinto tesão por você.

(Baseado em fatos reais)

Vacilo (miniconto)

No gélido quarto do hospital, movia –se de um lado ao outro com olhar aturdido e pensamentos em frangalhos: “Se ao menos ele viesse.”
Logo de manhã, seu peito será aberto e o coração restaurado.
Assusta-se ao som do celular, que esteve tão quieto nesse dia.
Era ele, finalmente ligou: - Ah sim, claro, bem cedo.
Ele viria. Emocionou-se, como não devia. Ofegante, sorriu sentindo
escorrer por sua face, quentes e sentidas lágrimas de alívio.
Amava-o e desejava ardentemente vê-lo antes da cirurgia.
Adormeceu com um sorriso nos lábios.
Sonhou desconexos sonhos, sempre interrompidos pela presença de uma
enfermeira. Irritava-se com esta invasão: “Deviam bater na porta antes
de entrar”." Mas que bobagem, estava num hospital e sofreria
uma intervenção cirúrgica séria e reclamava de um detalhe tão sem
importância."Finalmente amanheceu. Ela, ligeiramente apreensiva,
mantinha os olhos na porta. Recebeu todas as visitas de médicos e enfermeiros.
Foi encaminhada ao centro cirúrgico. Estava muda e pálida.
Da maca, olhou mais uma vez, a porta do quarto que deixava para trás.
Sumiram o corredor e a esperança.
Buscou uma lembrança e com ela partiu...E ele? Ele se atrasou.