quarta-feira, 25 de março de 2009

Paisagem

Do vento, uma rajada
onde transpareço nuvem

De um sopro, um alarde
rebatendo no teto

Uma sensação
parando entre os olhos e o tempo corrido

Um carro,
uma marginal em vai e vem

Um Pinheiros de tez lisa plúmbea
escondendo seu desespero

À saída de um esgoto,
uma garça... solidão.

terça-feira, 3 de março de 2009

O mundo é muito barulhento

Faça-se silêncio

que hoje preciso dos ruídos
das árvores
das águas
das pedras

em choque com o vento
e só.

Ânsias e mármore

Quem dera fosse eu iludida.
Por que vazam-me os olhos
as certezas cruas inauditas?
Por que vazam-me os olhos?

Ronda-me um abraço inédito
Incendeia qualquer riso pouco
Abrasam cinzas em descrédito
Ao vir vento sopro intrépido

Qual beleza fria, fotografia,
O deserto, a solidão a esmo,
Refletindo assaz água viva

Porque certa é a imagem nua,
Céu de um pensamento audaz
Que na dureza não se amotina.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Nada muda

Se eu não tiver você
(e eu não tenho)
continua todo o mundo igual
os dias de sol
as estrelas nos lembrando do céu
o mar sempre responderá ao vento
logo de manhã, os mesmos carros rugirão
as cidades seguirão seu ritmo
se eu não tiver você
ninguém deixa de fazer nada por isso
os teus amigos rirão contigo
a cama macia acolherá o corpo exausto
as contas vencerão
o trabalho exigirá como sempre
nada muda se eu não tiver você
as coisas de fora se movimentam
as coisas de dentro são como um jardim
e num tempo de rosas florescem e morrem
aqui não importa se lá fora é outono
dentro as estações não têm lógica
se eu não tenho você
nada muda ...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Redemoinho

Se solto todos os cordões
e ainda assim há o limite

vem do coração, esse ditador insano,
que me prende em fissura,

a amarra que me faz escrava
a gravidade que me aterriza.

Pequenos ruídos

luz queimando as horas
trechos de melodias
corpos descobertos
ar absorvendo as águas do (nosso)amor
mão adormecida sobre o ventre
tudo no centro da terra
pós explosão. silente.

Do todo que não tenho

falta o ar
falta o ar

é tanto
e me falta

quem me olha,
não diz

Cirurgia

Hospital. Quarto 43.
Cirurgia bem sucedida feita pelos dois irmãos ginecologistas. Ela, 53 anos, sem filhos.

Esforçava-se para manter o ouvido atento à conversa entre os irmãos. Tentava interrompê-los, pois sentia-se agoniada ao ver seu útero naquele recipiente transparente, guardado para análise laboratorial. Seus apelos silenciosos ocorrerram quando entrou o médico, professor dos irmãos e amigo da família, para uma visita. Apesar dos 80 anos tinha muito vigor no andar e na fala.

- Minha querida, a partir de agora você será uma mulher muito feliz!

- Obrigada, doutor, mas por que o senhor diz isso?

- Porque a partir de agora você é uma mulher oca!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O silêncio da última palavra que por si só fala

...e o que mais me intriga
é a síntese de tudo

foi preciso desbravar toda uma floresta
para poder dormir de um simples cansaço.

Lagoa

Pálpebras,
asas encolhidas
sob a neblina:

às vezes
o sonho adormece,
a água turva

e todos os peixes têm a mesma cor

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pétalas ávidas

Ganha minhas coxas,
quando em mim
teus olhos procurarem
o intento dos meus

Neles não há raso,
Nem esse riso próximo
nasceu ao acaso:

Antes se fez,
apaixonadamente,
em toda altura
que à vertigem lança:

A fome e a sede,
de bocas abertas,
diante da mesa farta

Lâminas duras

Não me peçam uma vida regrada
Não me exijam a presença
Não determinem meu dia

Não sou igual se chove
Não sou igual, quando antes à noite foi clara ou escura...
Não sou igual nenhum dia

Meu espelho é um estranho

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Fotografia

Reveste a luz
em lúcida quietude

Beleza mórbida

Dança que enlaça
a forma decifrada
de um ponto imóvel
que não apreendo

Pairando sob a retina
da lembrança
como pinceladas
de indefinidas cores

Avenidas cheias
Asfalto molhado
Luzes, cidade
Vidros cerrados

Calor incendeia o ponto imóvel onde se movem a música, a palavra
e o silêncio do poema pronto sem beijo no destinatário

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Absorvo

Porque te olho e a onda me engole

de ser eu feito areia
dissolvo mole,
disforme.


20/12/2008

Vãs tentativas

Estremeço
pela abundância sedimentada

o desespero retido
borbulha e massacra como fel

ímpeto de alcançar
- mãos estendidas oferecem -

ao chão, num tropeço,
as oferendas se espalham...



26/12/2008

Saudade

Quem vela teu sono
enquanto velo as horas
em que não durmo?

Teus cabelos guardam segredos
só decifro com meus dedos...

anéis justos cobrindo minhas mãos

Teu rosto, moço,
é o guardador da luz
que vigia a minha noite

Por onde andará teu pensamento
enquanto caminhas por aí, nas ruas,

Dessa cidade que não conheço?


27/12/2008

Bilhetes rasos para seus fantasmas (por Rita Medusa e Ivone fs)

Rita:

Desenho luzes?
Entreato de flechas ou somente espasmos no meu caderno manco?

Ivone fs ...
paraliso o instante nas direções multiplicadas

Rita Medusa
O medo é um passo ordinário para a sentença desejada...
Quantos passos você conta?

Ivone fs ...
era de orvalho
em vôo rasante...os pés flutuam

Rita Medusa
As asas souberam dos caminhos as fraturas das distâncias
Um só
Translúcido para ser onírico.

Ivone fs ...
jarradas inesperadas golpearam minha paz
choveu breu sobre os alicerces bambos

Rita Medusa
E bambas cordas se contorceram
Jasmins quiseram resgastes
Não imaginava ardência nos sacrificados mantos
resgates,alturas...

Ivone fs ...
jaziam as cédulas da credibilidade
troquei meu bilhete do vôo sem volta
me debati nos muros débeis do retorno automatizado

Rita Medusa
Soube de não retornar do teto do meu quarto
A alienação carimbando um desvario na testa
Inocente parábolas modificadas com a ponta da língua
Queimaram-me viva e a tocha na minha mão entornava

Ivone fs ...
um sono profundo transportou minhas cinzas
lavadas pelas ondas que inundaram minha face
dejetos abortados



27/12/2008

Vigília

Vigília

Quem apalpa agora
senão um vestígio
de vento na toca
onde curva e volta?

Eu, parede em aparência
uivo mudo, ardência
interna redemoinho

Raso o riso
passos em cadência
em qual me escondo?

Estranha, a noite!
O ruidoso momento
que adia ou espera

Tua voz : nuvem

- envolve minha dor
passeando
e não diz a palavra
que me salva -

Desse ponto,
do mapa indecifrável
do abismo noturno,

aves rodeiam
a esfinge adormecida
guardando um segredo


16/12/2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008