terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sobre ilusões amorosas

Embaixo do sono
vão sonhos entorpecidos
de um desejo,

que antes assíduo,
mas depois do ato
só vaidade e desacato

Antes do fim

querer da vida
a crença que ao menos
sustenta

os olhos vidrados
o nariz em reta

e ao pé da orelha
os sussuros molhados

regando a planta
mantendo o viço
do vício de seguir

teimosia estatalando nos cascos

Terra não prometida

O lamento é uma música
de passos sumindo no horizonte

O lamento dá as costas e encara os pés

O lamento é o grito sufocado
de quem perdeu a fé e parte...

carregado.

Confronto

Entre a bebida
e os ruídos da noite
tua imagem passeia...

acelero a volta,
meia volta,
ao meu pouso curto

à merce dos móveis,
em silêncio (imóveis)

e da pouca luz
refletindo meus vestidos inéditos

- deliberadamente prontos

Acelero a volta
em mais um gole,
que devoro

e intervém

pela parte que não fala
pela parte que não cala
- intermediário que extrapola

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

é o que me diz

nestes cômodos, onde as portas nunca levam chave e o trânsito é sem mão. percebes minha dança? há fadas em seda e eu teço nervuras em seus vestidos. elas me afrontam e procuram seu par. eles riem e abençoam seus beiços dependentes. andam em procissão. é o que me diz o teu sorriso mudo. diante da fala muda. é o que me diz, no fim das contas
do que eu sempre soube.


17/10/2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Palavras impressas

I -

Quanto mais quieta mais intensa a agitação encoberta
A fala presa num suspiro travado aguarda um vão neste campo de concentração
Os olhares de gelo
Os sorrisos da hipocrisia
Terrenos infestados
Todos cegos comendo tua merda
É ínfimo o instante...
Dedilhando tuas costas
A palavra inteira passou por um fio,
Percorreu direta, como um líquido injetado em tua pele
Tudo na medida, de não adivinhar, nem acrescentar
Completa. Pode-se dizer. Completa.
Vou pelo ritmo agora,
O ritmo que vier,
Direto, dentro do meu ouvido,
Fala e saliva
Respondo: com as mãos e o corpo inteiro...


II -

Todos os espaços se colidem
não há mais frente ou verso
derramei-me inteira
agora posso ir...
agora sei
que não há limite
não há berço
não há o lençol que forre
nem tão pouco o que cobre
agora sei...


III -

A febre vazou
o delírio não entorpece
que venham todas as dores
que venham e testem
até onde me querem?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ligação a cobrar

Ouço tua voz
que me chama

e reviro

À noite havia pingos
no meio da neblina

e um caminho.

Ainda

que houvesse
uma única razão
para dormir ao teu lado
entre estes trapos
que restaram

valeria!

não tivesse sabido
da tua tão pouca exigência...

no entanto, agora penso:

é hora de limpar estes cantos
abrir a janela e ver o sol
(a próxima atração é de quinta categoria)
eu vou, você fica.

Ivone fs....04/08/2008

Índia que sou

Dos desenhos que faço na água
sobram as sombras e os olhos

Amanheço na borda do primeiro raio
e tenho o dia inédito, em preto e branco

Das securas cravadas, que me fazem sólida,
percebo as primeiras lascas caindo

De pincel nas mãos, espalho o sangue
e de vermelho tinjo minha pele nova

Há um peso...um grito na mata cerrada...

sábado, 15 de novembro de 2008

Arrastão

Nunca serei a pequena margem de tua visão. Se me calculas, perdes a noção. Sou limbo escorregadio, a própria onda dos ventos das estações que se repetem e nunca são as mesmas. Em cada marca, meu rosto altiva, em cada suspiro preso, meu rumo muda. Mesmo contra vontade, sigo. O tempo me chama e sempre vou, mesmo contra minha vontade...o tempo passa e sempre vou. O nosso tempo fica...o nosso tempo ficou...

**

Herdei a brandura
Acasalada

Duas estrelas na madrugada

Pela minha janela
Além breu

(Nós)

Nus aventurando

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

fim de tarde

Um dia sentei no teu colo
no meio da rua

fui mais nua
que a rua

e nunca mais te vi
nem nunca mais me despi


Ivonefs - 04/09/2008

sábado, 18 de outubro de 2008

Um dia depois de antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

Olhares

Insuportáveis, as reticências que sobram nos rompimentos...

Preciso deste quarto escuro,
limitar minha fobia,

domesticar essa ânsia de ir...
(nem que seja só por hoje)

Quem clama respostas,
é a aflição das mãos vazias

O solo íngreme
e os pés inchados?

são pela dureza da desesperança.

As manchas a encobrirem a retina
são sinais latentes:

de que ainda restou algo
do que ainda me domina.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cifras e Códigos

meu dia começa no meio
é simples: só durmo no fim da noite

cenas do dia anterior:
mastiguei um pacote inteiro de cookies
castanha-do-pará
fui votar e me esqueci o número dela
o melhor da rodovia vinha da tua voz:
"diz que segue o coração" *
e sigo então
a chuva no vidro
duvidando do sol
só por hoje
nada formal
nem almoço à mesa
qualquer coisa enquanto caminho
fala emudecida
intensa conversa interior
aumento o som
e leio Drummond:
A rosa do povo
..."É feia. Mas é realmente uma flor"

...................................... * Heitor Branquinho

romântica

Houve a chuva
no telhado

ouça a chuva
ouvi chover

no meu dia
mais nublado

teve um sol
houve você!

esperam muito de mim

esperam meus pés atados
esperam que eu seja o dia
me esperam na retina

e eu sempre querendo lá.